Os Pássaros ♥

Os Pássaros - Juliana Fiorese

‘Estive pensando’, acrescentei ao final, ‘sobre o que
vai acontecer com Londres quando todos esses pássaros
começarem a lançar suas cargas sobre nós.’
[Os Pássaros, p. 63]

Eu gostei tanto de Os Pássaros que fica até difícil começar a falar sobre o livro de outra maneira se não for com um: “os pássaros estão de volta“.

DarkSide Books os trouxe para nós em 2016 e, como mostrei nesse unboxing aqui, recebi o livro em parceria com a editora em outubro do ano passado; somente agora estou conseguindo pôr em palavras a grandiosidade desta obra, a meu ver.

Já adianto que eu não vou entrar no mérito de plágio ou não sobre o filme homônimo de Hitchcook, até porque não assisti o filme e, das discussões, esta é, para mim, a mais irrelevante – na própria introdução do livro já tem um texto falando exatamente sobre esta questão e também existem discussões e discussões sobre o assunto na internet,  caso alguém tenha interesse sobre, basta pesquisar.

Os Pássaros - Juliana Fiorese

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Eu não consegui, em nenhum momento, enxergar os pássaros apenas como pássaros mesmo. Não sei se isso ficou um pouco confuso, mas tentarei explicar aqui.

E, para quem estiver imaginando que o livro é apenas sobre um monte de pássaros que atacam pessoas, já adianto que, na minha interpretação, está muito longe de ser só isso – caminho este que me deixou completamente apaixonada por esta obra de Frank Baker.

Título - Juliana Fiorese

Os Pássaros - Juliana Fiorese

O livro Os Pássaros foi publicado pela primeira vez em 1936 e é exatamente neste contexto, de uma Londres pré-guerra, que a história vai se desenvolver.

Logo no prefácio nós temos a voz de Anna, filha do narrador, que desde a infância sempre se mostrou curiosa sobre questões existenciais e sempre questionou os pais sobre o que foram os pássaros que mudaram a vida da humanidade e sobre a expressão comumente usada na família: “antes da chegada dos pássaros“.

O que é legal perceber é que já nesse comecinho, Frank Baker deu força à voz da filhauma personagem feminina – mostrando o quão preocupada ela estava com questões profundas que envolviam a sociedade, enquanto que os seus irmãos homens sempre pensaram coisas sem valor, besteiras ou que não mudariam nada nas suas vidas ou nas vidas das pessoas.

Os Pássaros - Juliana Fiorese

A partir destes questionamentos de Anna, seu pai, aos 85 anos, resolve contar toda a história d’Os Pássaros nos levando em uma viagem impressionante à Londres de 1935.

Intercalando narrativas que contam a chegada dos pássaros – desde os primeiros aos ataques finais tão brutais que chegam a até matar pessoas – com o cotidiano londrino daquela época, vamos nos aventurando em toda a onda de terror que assombrou aquela população.

Os Pássaros - Juliana Fiorese

Até alguns anos antes do livro ser publicado, Londres era a maior cidade do mundo e justamente por conta da superpopulação já havia sofrido com epidemias de cólera que mataram muitas e muitas pessoas. A princípio, eu estava enxergando Os Pássaros como algum tipo de epidemia.

Porém, conforme o texto foi seguindo – e não demorou muito – e eu fui percebendo as consequências deixadas pelos Os Pássaros, eu comecei a enxergá-los como os próprios indícios da guerra. E isso ficou tão forte na minha leitura que, mais ou menos a partir lá do meio do livro, sempre que eles apareciam, eu só conseguia ver bombardeios aéreos e aviões de guerra sobrevoando Londres.

E foi através dessa analogia que segui viagem, principalmente por conta da devastação deixada pelos Os Pássaros nas primeiras páginas do livro, quando o narrador, em digressão, faz uma viagem à cidade caótica em que tudo aconteceu para lembrar e organizar seus pensamentos para contar a história para a sua filha e para nós, leitores.

Os Pássaros - Juliana Fiorese

Em paralelo aos ataques dos Os Pássaros, o narrador vai abordando diversos aspectos sobre a infeliz sociedade: insatisfação e carga-horária de trabalho pesada; exploração do chefe de trabalho sobre seus empregados; inveja do outro; cobiça por riquezas; desigualdade social; classe pobre sustentando, através de impostos absurdos, corporações de soldados; construção de máquinas capazes de destruir a humanidade; falta de credibilidade das notícias que eram publicadas nos diários/jornais onde estaria registrado o que o público gostaria de ler, e não os fatos em si; crítica – principalmente através da mãe do narrador – sobre o papel da mulher na sociedade; muitas casas iguais, insalubres, abafadas, pouco verde, monotonia em meio a tudo isso; apatia das pessoas, no geral.

E aí a gente consegue perceber toda a insatisfação da população naquele momento.

Os Pássaros - Juliana Fiorese

Os ataques dos Os Pássaros começam a ser sentidos pelos mais fracos: no início, uma cafetina é atacada; depois são moradores de rua, depois a grande população, e vai subindo para um papa, um chanceler, os opressores. Daí surge o pensamento, quem sofre primeiro com as grandes guerras, se não os mais fracos? E até onde vai, sabe?

Os Pássaros também vão adentrando nos bairros, nas cidades e grandes problemas vão surgindo, como a contaminação em reservatórios de água, sujeira extrema na cidade, odor forte nas ruas, etc. É uma devastação tão grande, que só lendo o livro para ter noção mesmo.

Os Pássaros - Juliana Fiorese

É por tudo isso que eu acredito que vale muito a pena conhecer essa obra de Frank Baker; ela tem uma bagagem muito forte sobre uma parte da história de Londres e, além disso, nos traz diversos questionamentos sobre a nossa própria humanidade desfigurada, suas consequências nisso tudo e a que ponto isso reflete na “vingança dos pássaros” (ou nas guerras, propriamente ditas).

Sem falar em todas as questões existenciais que nos são colocadas ao longo da narrativa, sabe? É impossível não sair pensando em como podemos lidar com isso enquanto indivíduos que somos.

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Por fim, gostaria de falar de uma personagem que eu gostei demais na narrativa, a Olga Mironovna.

Ela é uma garota russa que apresenta certa estranheza na visão do narrador inglês, visto que a Rússia era um lugar meio sinistro onde a revolução espreitava – isso tem ligação direta com os problemas de Olga; ela explica tudo –; ela também enfrenta grandes dificuldades em Londres, falta de dinheiro, tristezas e, apesar de tudo, ela aparece com um semblante muito tranquilo.

E é justamente Olga que vai dar forças ao narrador. Sabe aquela pessoa que aparece de repente e do nada, somente para nos mostrar a liberdade? ♥ Ela é maravilhosa !!

Os Pássaros - Juliana Fiorese

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Fica a indicação de um grande livro com um contexto histórico enorme: Os Pássaros ♥

E, o mais legal é que as interpretações podem ser diversas !! Eu segui o caminho que contei para vocês, mas as possibilidades são infinitas !! Enxergar a guerra, ou traçar um paralelo entre os pássaros e os homens, ou ler como uma grande história de terror – suspense é o que não falta nesse livro -, ou de outras e outras maneiras. ♥

O importante é ler. ♥

Os Pássaros - Juliana Fiorese

Título - Juliana Fiorese

(…) a impressão de que o mundo foi uma vez ‘governado de forma tão miserável, a humanidade tão estúpida e apática, que para mim jamais foi possível ter um momento de felicidade em meio a tudo isso.’” [p. 11]

Você descobria o melhor e a maior simplicidade do nosso povo sempre que alguma ocasião especial o chamava à unanimidade.” [p. 11]

O sentimento oceânico era real o suficiente, mas não poderia ser o fundamento para um modo de vida. Não importa quais momentos de libertação possam experimentar, os seres humanos estão destinados a uma vida de lutas.” [p. 20]

Levantei-me. Meus tornozelos doíam, meus braços estavam roxos, sangue pingava do meu queixo. […] Percebi que eu não precisava subir em uma montanha para encher meus pulmões com vida. Dei-me conta de que fizeram meu mundo com o que ele era; que tudo morreria ao meu redor se eu morresse em minha alma; que tudo viveria se minha alma também se manteve viva.” [p. 20]

(…) lembrando-me que para um grão de beleza no mundo antigo, houve uma rocha de feiura. Se o grão tinha que ir com a rocha, então assim deveria ser.” [p.37]

Quando lhe digo, Anna, que esse estado das coisas existia há apenas poucos anos como resultado de um grande massacre da juventude em uma guerra como nunca havíamos conhecido antes, você começa a perceber algo da estupidez singular do homem. É uma coisa que não pode ser compreendida, podemos apenas nos assombrar a respeito.” [p. 42]

As pessoas, na verdade, faziam o que a Imprensa lhes dizia para fazer.” [p. 48]

Eu era filho único, e ela me amava como uma mãe ama a única semente que brotou dela. Talvez me amasse demais, mas quem ousaria questionar a extravagância do amor em um mundo que via tão pouco dele?” [p. 58]

A cada estação no caminho, mais e mais pessoas se espremiam para entrar. De qualquer forma, elas tinham que usar a força, literalmente, para entrar no carro. Assim, na noite mais quente do verão, as pessoas ficavam de pé, vestidas com roupas escuras e apertadas, suando sobre o corpo de outro passageiro, respirando sobre o pescoço ou nariz de um homem ou mulher, apertados um contra o outro. É estranho que essa proximidade nunca tenha causado o menor embaraço às pessoas, e, no entanto, se você escolhesse dois deles, homem e mulher, e os colocasse em uma grande cama, eles provavelmente ficariam repletos de vergonha.” [p. 61]

Uma propaganda era um elogio irreal e com freqüência altamente artístico – com palavras ou fotografias – de vários produtos de consumo cujos fabricantes desejavam vender ao público. Os artigos eram anunciados com tanta perspicácia que geralmente as pessoas eram induzidas a comprar coisas de que não necessitavam de verdade. Nada escapava à propaganda – não, estou enganado. Dois artigos de interesse universal, armamentos e contraceptivos, nunca, até onde me lembro, receberam anúncios de propaganda.” [p. 61]

Percebi em tudo um sentimento terrível de instabilidade do falso mundo que havíamos erguido no lugar do mundo verdadeiro, que era nossa herança.” [p. 68]

Aos livros, sempre a eles; a um mundo crepuscular de sombras mais dóceis que os seres vivos; às palavras impressas em uma página, em vez de palavras expressas por um amigo ou amante. (…) Convoquei a arte para suprir aquilo que eu parecia ser incapaz de obter da própria vida.” [p. 107]

Arte. Quão sólida, quão definitiva soa a palavra. E, em certo sentido, quão sólida e quão definitiva é qualquer obra de arte esplêndida. Em sua criação, um homem coloca todo o amor que jamais sentiu pelo mundo natural. Como uma homenagem à força criativa que o fez: uma assinatura de sua existência. O artista deve trabalhar para si; trabalhar somente para expressar a si mesmo, sem buscar nenhuma recompensa que não seja satisfação em saber que dele veio uma reafirmação da verdade.” [p. 108]

Tentei justificar a presença dos bichos, afirmando que eles tinham sido enviados por algum deus ofendido para dar uma lição aos homens.” [p. 132]

Respondi que acreditava que aquilo significava que o tempo avançava rapidamente e que nós não tínhamos força para interromper seu progresso.” [p. 149]

Quando olho para fora desta janela e vejo margaridas fechadas, bem próximas umas das outras, como se tentassem resistir ao vento que as golpeia; quando vejo folhas fragilmente penduradas nos ramos retorcidos como pedaço de papel queimado; quando vejo o riacho brotando furiosamente da montanha vale abaixo, carregando plantas e galhos com ele; vendo essas coisas, sou tentado a perguntar qual o propósito de toda esta Vida quando nós também, já não mais fortes o suficiente para suportar a correnteza, devemos sofrer para sermos levados embora com ela.” [p. 153]

Ah, a arrogância daquele momento quando percebi que os homens poderiam ser deuses se parassem de se lembrar de que outrora haviam sido macacos! Deuses, pois possuíam essa qualidade notável de consciência da Vida.” [p. 159]

Em seguida, pareceu-me que nós, em nosso tempo, havíamos nos acostumado ao hábito das experiências inconscientes. Nós comíamos, bebíamos, respirávamos em um estado de coma parcial. Metade de nossa vida física era passada em um estado crepuscular de atividade não realizada. Uma palavra que saia de nossos lábios com freqüência era ‘subconsciente’. ‘O meu subconsciente’, dizíamos, ‘me levou a fazer isso.’ Éramos muito orgulhosos dessa descoberta ingênua do nosso subconsciente, pois, afirmávamos, ele era uma força incontrolável, uma compulsão primitiva; era proveitoso possuir uma qualidade que poderia nos escusar de alguns de nossos gestos mais mesquinhos.” [p. 159]

Enquanto eu conhecesse as inesgotáveis forças de criação da Alma, não precisaria nunca temer a morte, pois a morte era uma palavra inventada por alguém cujo corpo havia perdido sua Alma. Quando esse corpo se aproximasse do fim, procederia ao ato final de oferecer-se à Alma, e a Alma, fortalecida dessa forma para sempre, iria se identificar com o outro universo de onde surgiu. Para nutrir a Alma contra esse fardo derradeiro, é preciso manter sempre diante de mim a verdade das suas forças de criação.” [p. 161]

Ao somar minhas virtudes, achei-as sobrepujadas brutalmente pelos meus defeitos.” [p. 207]

No entanto, eu vi você e havia algo em seus olhos que eu sabia ser verdadeiro. Só que… só que não é verdade até que você veja a si mesmo.” [p. 219]

Seu olhar vazio negava minha existência; eu era um grande nada.” [p. 225]

Eu soube, de uma maneira que jamais havia aceitado antes, que eu permanecia sozinho, que ninguém poderia invadir minha Alma. Tampouco eu poderia penetrar na intimidade de qualquer outra Alma. (…) Eu não podia salvar ninguém, pois ninguém tinha o poder de salvar um homem a não ser ele mesmo.” [p. 228]

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É isso pessoal !!

Quem já leu o livro? O que achou dele? E quem vai ler em breve ?! Quem viu o filme? Me contem aqui nos comentários, eu adoraria conhecer a opinião de vocês e saber quem está interessado na leitura ♥ !!

Espero que tenham gostado do post de hoje.
Muito obrigada por acompanharem até aqui.

Com muito carinho ♥,
Juliana Fiorese.

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Juliana Fiorese

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