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O diário de Myriam

Corpos brancos, bocas entreabertas, torsos nus,
peitos arqueados como se puxassem o ar…
[O diário de Myriam, pág. 31, DarkSide Books]

Em resumo, o regime dos al-Assad está no governo há muito tempo, fazendo com que a população da Síria nunca vivesse em uma democracia. Não acreditando que este governo estava indo de interesse com seus ideais islâmicos, alguns grupos armados de oposição, financiados por outros países, começaram alguns levantes populares contra tais regimes ditatoriais.

Mas a guerra da Síria passou a ser também de interesses externos, especialmente por conta da sua posição estratégica e da política do petróleo: Arábia Saudita e Qatar financiam os grupos terroristas e, esses grupos de oposição também tem aval dos EUA e França. Por outro lado, a Rússia apoia o ditador Bashar al-Assad, que apresenta uma repressão violenta aos protestos. E isso, desde que a guerra começou, já deixou mais de 400 mil mortos e mais de 5 milhões de refugiados.

O Estado Islâmico (EI), principal grupo terrorista na Síria, vem difundindo o terror e devastando várias cidades. As tropas governamentais têm conseguido reconquistar algumas delas; que foi o caso de Alepo, uma das cidades que estava sob controle do EI, e ambiente onde Myriam Rawick vai nos relatar a sua história, de 2011 a 2017, quando começou a escrever em seu diário aos 6 anos de idade.

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Sobre a história

O diário de Myriam vai nos mostrar, através da percepção de Myriam, as consequências da guerra da Síria ao chegar em Alepo, capital econômica da Síria, onde os terroristas invadiram e passaram a controlar, devastando a cidade e matando inúmeros inocentes.

Eu sempre fico impressionada como guerras desse tipo acontecem até os dias de hoje; foi o mesmo sentimento quando eu li 13 Horas | Os soldados secretos de Benghazi (na Líbia). Lendo a introdução de O diário de Myriam, parece que foi algo que aconteceu há muito tempo. Mas não… Acontece hoje, agora. E está longe de acabar.

E é muito triste perceber que uma criança já tenha passado por tudo isso, que uma criança já saiba tanto sobre guerra, bombas e sobre morte, como a própria Myriam vai nos relatar em seu diário. Mas, o que é mais triste ainda, é saber que tem milhares e milhares de crianças que não conseguiram escapar com vida para nos contar sua história.

Myriam começa nos contando sobre seus dias antes da guerra, recheados de cores, cheiros e sabores, que ficaram guardados apenas em suas lembranças. O que resta hoje em seu antigo bairro são ruínas, escombros e destruição.

Vamos acompanhar, através das palavras de Myriam, o início das manifestações em Alepo; o surgimento de barulhos longínquos de bombas e tiros, e sua rápida aproximação ao bairro em que ela morava; o constante barulho das bombas todos os dias, o dia inteiro; a chegada de atiradores espalhados pelas ruas; a perda de pessoas próximas; a falta de energia, água e alimento; a chegada de desalojados e a iminente necessidade de abandonar a sua casa, sua rua, seu bairro para se proteger dos ataques.

O livro é muito emocionante. O que foi bonito de perceber foi o senso de comunidade, as pessoas se ajudando ali com o que tinham, dividindo a pouca comida que conseguiam, sem saber quando teriam alimento outra vez, mas não deixando de lado o apoio ao próximo, essencial para a sobrevivência em meio a guerra.

Em alguns momentos, eu esquecia que O diário de Myriam foi escrito por uma criança, por conta de passagens tão pesadas, como:

“(…) no prédio ao lado do nosso, duas crianças ficaram presas em um quarto e que o míssel tinha destruído a escada.
O pai delas, que teve as duas pernas cortadas, gritou por elas quase a noite inteira, para elas não saírem de lá, antes de morrer, quando seu sangue se esvaiu totalmente.” (pág. 256)

Ou como a história da menina Iba, de cinco anos, narrada na página 253.

Mas, o que mais me chamou a atenção na leitura inteira foi que, mesmo com toda a guerra acontecendo, mesmo com atiradores escondidos e espalhados pelas ruas, Myriam não deixou de ir à escola um dia sequer, sempre que tinha aula. Com a incrível ajuda e força de seus pais, a garota enfrentou tensões ao entrar e sair da escola, passou por todos seus medos assistindo aula, muitas vezes no subsolo por conta dos bombardeios, e sempre apresentou um boletim com ótimas notas.

E eu fiquei me perguntando o tempo inteiro, como eles tinham coragem de enfrentar isso diariamente… E lá na página 209 Myriam responde:

“Mamãe está muito orgulhosa de mim, pois não perdi nenhum dia de aula no ano passado. Ela disse que a escola é a nossa maior sorte e que quanto mais a gente for, maior a chance de ter sucesso na vida.” (pág. 209)

Sem palavras, né… Muito emocionante.

Eu recomendo a leitura, até para se informar mais sobre o que está acontecendo por lá; o livro também traz um posfácio que explica um pouco sobre a guerra da Síria.

O Jornal Joca

Foi através de uma publicação do Jornal Joca – único jornal voltado para jovens e crianças no Brasil -, apresentada pela professora de informática, que alunos de uma escola pública de Osasco ficaram conhecendo a história de Myriam e souberam da publicação de seu diário na França. As crianças começaram a escrever cartas para o jornal, pedindo a tradução para o português e foi a DarkSide Books que trouxe  O diário de Myriam para o Brasil.

Eu achei muito emocionante a manifestação e o interesse dessas crianças para conhecerem mais a história de Myriam, e, quando abrimos a edição brasileira, temos o registro das cartinhas escritas pelas crianças de Osasco.

A DarkSide Books fez um site para o livro com mais informações; sugiro que deem uma olhada nesse link aqui: A guerra da Síria vista pelos olhos de uma menina. Lá tem fotos, vídeos, e mais um monte de textos interessantes.

Algumas frases

“Um dia, quando eu era bem pequena, papai disse: ‘Alepo é a estrela da terra.’ E ele tinha razão. Alepo era um Éden, era o nosso Éden.” (pág. 39)

“A gente compara o tempo todo o que a gente tinha e o que não existe mais.” (pág. 209)

“Bombardeiam tanto que a gente nem consegue mais se ouvir.” (pág. 215)

“Aqui, até mesmo Deus não tem mais casa.” (pág. 249)

“Alepo é uma cidade fantasma. Não tem mais ninguém. Às vezes, há senhoras de preto que correm do lado de fora, ou pessoas armadas. Mas só isso. Quando a gente abre as janelas, não tem um barulho de vida sequer. Não existem flores, não existem cores e até os pássaros já nos deixaram.” (pág. 264)

“Fazemos tudo o que podemos para nos manter firmes e esquecer a Alepo que perdemos, mas cada dia fica mais difícil.” (pág. 265)

“Adoraria que um dia as estrelas da minha bandeira fizessem parte de uma constelação e pudessem ser vistas por qualquer pessoa de qualquer parte do nosso planeta.” (Myriam Eawick).

Alguns links

Eu separei alguns links sobre a guerra da Síria, que me ajudaram a escrever o inicio desse post, para quem quiser entender um pouco mais:

Exame | 13.03.18 | Entenda as causas da guerra na Síria

G1 | 27.02.18 | 10 perguntas para entender a guerra da Síria, das origens às novas frentes de batalha

BBC News | 07.04.17 | Por que há uma guerra na Síria: 10 perguntas para entender o conflito

BBC News | 06.03.18 | Como os brasileiros podem ajudar os sírios

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É isso, gente. 

Espero que tenham gostado do post de hoje.
Muito obrigada por acompanharem até aqui.

Com muito carinho ♥,
Juliana Fiorese.

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