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O Corvo

“Nenhum mortal tem direito de tomar o corpo ou a vida de outro.
Mas toda hora se mata e se estupra. O mundo inteiro está infectado
e o espírito mais íntimo e secreto nos recessos da matéria inerte
observa sem piscar.” [A. A. Attanasio sobre O Corvo, DarkSide Books]

Sempre me faltam as palavras quando preciso começar a falar de uma história intensa, e O Corvo, de James O’ Barr, é uma dessas histórias, com intensidade elevada à potência máxima. A HQ foi publicada recentemente aqui no Brasil – pela editora DarkSide Books – em sua edição definitiva e, acreditem, a obra é de tirar o fôlego.

O post de hoje é sobre as minhas impressões de leitura dessa obra-prima de O’ Barr.

*Quadrinho com conteúdo adulto: nudez, violência e drogas.

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No primeiro contato com o livro, em um texto escrito pelo próprio James O’ Barr, vamos ficar conhecendo os motivos pelos quais o autor, mesmo depois de 3 décadas após a primeira publicação de O Corvo, resolveu mexer na HQ.

Ele vai nos explicando todas as limitações técnicas as quais estava submetido na época, mas, o que mais me chamou a atenção, foi a sua limitação emocional. E foi emocionante ler que, após 30 anos da fatalidade que aconteceu em sua vida, ele conseguiu expor e eternizar no quadrinho alguns momentos vividos por ele e sua amada; eu achei semelhante a Eric, protagonista de O Corvo, que somente após um tempo (muito mais curto, é verdade) conseguiu fazer o que tinha em mente para a sua vingança. Esse tempo de preparação foi crucial para ambos, criador e criatura.

Ainda adolescente, James O’ Barr perdeu sua namorada, “A Menina que Era a Shelly“, vítima de um acidente de carro cometido por um bêbado – “Shelly” morreu na hora -, quando ela estava indo, à pedido de James, buscá-lo, pois ele não havia pago os impostos do carro e não poderia pagar uma possível multa. O que acontece é que James ficou se culpando por conta do ocorrido. Com tanto sentimento pesado dentro de si, O’ Barr acreditava que se conseguisse colocar no papel aquela raiva sem limites, conseguiria pôr um fim em sua dor. E foi nessas condições que O Corvo foi concebido.

Uma frase nessa introdução de James que achei muito dolorosa, porém bem bonita (porque sou fã de Mary Shelley):

“Escolhi o nome Shelly por causa de Mary Shelley, que escreveu Frankenstein. Eric veio de O Fantasma da Ópera, porque a morte de “Shelly” me transformou em um monstro por baixo da pele, escondido pelo rosto estoico da normalidade. Tal como um cartógrafo doido, tracei uma paisagem de nanquim tomado de raiva. Se não havia justiça no mundo real, eu a inventaria.”

Outra tragédia que aconteceu mais tarde em sua vida foi a morte de seu amigo, Brandon Lee, no set da adaptação de O Corvo para o cinema. Mais uma vez, a fatalidade o fez tomar toda a culpa para si, por ter escrito essa história.

Muito triste, né?

Sobre a história

O Corvo conta a história de Eric, um rapaz que estava prestes a casar-se com Shelly, seu grande amor, quando um grupo de bandidos drogados os interceptam e acabam tirando suas vidas. Mas, por algum motivo sobrenatural, Eric recebe a visita de um Corvo e, nesse momento, extremamente debilitado por conta dos tiros que levou, consegue ver tudo o que os assassinos fizeram com sua amada, que não sobreviveu.

Uma das coisas que eu gostei demais foi a presença do Corvo representando a força sobrenatural que faz Eric voltar do mundo dos mortos. No posfácio, A. A. Attanasio vai explanar diversos significados que se encaixam perfeitamente na personagem, como “Durante cem mil anos o maior dos deuses foi o corvo. Aquele que leva os sonhos.” ou “(corvo) o negrume do desespero e sua cura-veneno.”; mas é interessante ler só após o  término da história mesmo, e ir encontrando cada significado daqueles em Eric. Tudo faz muito sentido!

Passado um ano do trágico destino de Shelly, Eric – conhecido como O Corvo no momento presente – vai fazendo justiça à morte de sua noiva e nós o acompanhamos na busca por cada assassino que estava presente naquele terrível dia do homicídio.

Eu achei incrível a narrativa que vai intercalando momentos do presente, do passado e até de pensamentos de Eric/Corvo para nos contar, de fato, como tudo aconteceu até o desfecho da história. E não tem nenhuma ordem, é tudo muito embaralhado, que reflete muito sobre a perturbação emocional que o assassinato provocou no protagonista.

E a solução que O’ Barr utilizou para diferenciar os tempos foi muito boa, visto que a HQ não é colorida: nas cenas de vingança, sempre carregadas de muita agressão e violência, as ilustrações são muito escuras, cheias de hachuras e sombras e, algumas vezes, as bordas das páginas são pretas; já nas cenas do passado com Shelly, ou de sonhos e pensamentos, a pintura é muito mais suave, leve, romântica até, e as cenas são mais claras.

É interessante perceber também o quão frio O Corvo é; tem uma calmaria assustadora em sua voz ao falar com bandidos; estes, por sua vez, agem sempre de maneira desesperada e fervorosa, por mais confiantes que sejam. E essa personalidade do O Corvo é bem contrastante com a personalidade de Eric, sempre muito doce. O que é mais bonito de perceber é que, mesmo tornando-se esse vingador imbatível, sua essência ainda está lá para pessoas boas, merecedoras… E isso vai aparecer em diversos momentos na HQ.

A história é muito intensa; em alguns momentos cheguei a emocionar-me, como na parte de Sherry, uma garotinha que aparece na história, ou como na parte que mostra o homicídio de Shelly, por exemplo. As cenas de sofrimento de Eric são angustiantes!! E o final do quadrinho é bem frenético.

Gostei demais de O Corvo !

Só uma observação

Ainda na introdução, James O’ Barr vai contar sobre a produção de O Corvo, que foi toda feita com nanquim e papel. Um trabalho incrível, sem sombra de dúvida. Mas, de certa forma, ele denigre o trabalho do artista digital. O que deu a entender, pelo menos na minha leitura, é que na visão dele o computador faz o trabalho para o artista, como se fosse só apertar um botão e pronto, está feito. Eu fiquei bem triste ao ler tal declaração, especialmente ao chegar na última frase quando, ironicamente, ele fala que o computador dele não foi um desperdício total, afinal, aranhas fizeram casa lá.

Eu não queria entrar muito no mérito dessa questão, mas isso, como artista digital que sou, me doeu demais no coração. Ainda mais vindo de um outro artista. Quem trabalha com arte sabe o quão difícil é viver disso, ainda tem muito preconceito e desvalorização no geral sobre ser artista, e quando um próprio artista fica fomentando essa diferenciação, desprezando um lado, gerando ainda mais preconceito, machuca demais.

Eu já escutei muito isso “ah, mas é no computador, né?”, como se não desse nenhum trabalho mesmo. Acho desnecessário demais. Dá trabalho sim. A gente precisa parar de pensar tão preconceituosamente (até nisso) e caminhar juntos nessa jornada de ser artista.

Mas, enfim, O Corvo é sensacional.

Algumas frases

“Ninguém morre enquanto for amado. E eu sei que, em algum lugar, “Shelly” sorri.” [O Corvo, DarkSide Books]

“A alma sofrida: a argamassa… O desespero: os tijolos… Para construir um templo da tristeza.” [O Corvo, DarkSide Books]

“Aqui não é o inferno, mas dá para enxerga-lo daqui.” [O Corvo, DarkSide Books]

“Mãe é o nome de Deus nos lábios e no coração de toda criança.” [O Corvo, DarkSide Books]

“Algum dia tudo será justo e haverá surpresas incríveis. É no que eu acredito de verdade.” [O Corvo, DarkSide Books]

“A solução não é apenas sobre justiça ou vingança. É sobre perdão.” [O Corvo, DarkSide Books]

“Nenhum mortal tem direito de tomar o corpo ou a vida de outro. Mas toda hora se mata e se estupra. O mundo inteiro está infectado e o espírito mais íntimo e secreto nos recessos da matéria inerte observa sem piscar.” [A. A. Attanasio sobre O Corvo, DarkSide Books]

Detalhes da HQ

O Corvo | Filme

A obra de O’ Barr não tardou muito e ganhou adaptação para o cinema, em 1994. Eu ainda não assisti o filme, mas em breve corrigirei essa falta; eu realmente virei fã do Corvo. xD

Infelizmente, o filme ficou marcado pela morte do ator Brandon Lee – que fazia o papel do Corvo – no set de filmagem, em 1993. =~

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É isso, gente. 

Espero que tenham gostado do post de hoje.
Muito obrigada por acompanharem até aqui.

Com muito carinho ♥,
Juliana Fiorese.

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